A Técnica de Biofeedback para Dores Orofaciais – O Guia para Dentistas

Uma área recente da Odontologia vem atraindo a atenção dos pacientes e da comunidade científica: a especialidade em disfunção temporomandibular e dor orofacial.

Para quadros de dores musculares na região da cabeça, um tratamento satisfatório que tem se destacado na área é o Biofeedback Muscular.

Você deve estar se perguntando duas coisas:

Em que se baseia esse tratamento e o que ele tem de diferente?

Bem, hoje vamos fazer uma análise sobre tudo que você precisa saber sobre o tratamento do Biofeedback Muscular por Eletromiografia.

No texto de hoje, nós vamos:

  • Entender a relevância da área de dor orofacial;
  • Como funciona o tratamento com biofeedback muscular;
  • Discutir como esta técnica agora está disponível a clínicas e consultórios;
  • Por que o tratamento tem sido tão bem aceito pelos pacientes;
  • Principais aplicações na odontologia.

Parece interessante? Vamos começar.

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Antes de começar, você já ouviu falar em “DTM e dor orofacial”?

DTM significa Disfunção Temporomandibular e orofacial é significa “referente à face e a boca”.

Em termos práticos, profissionais especialistas na área são habilitados para realizar diagnósticos e aplicar técnicas que visam a redução da dor, reabilitação funcional e melhora da qualidade de vida de seus pacientes.

Em muitos casos a dor orofacial pode ter origem muscular. Uma importante causa é o excesso de movimentos parafuncionais dos principais músculos da mastigação (temporal e masseter), o chamado Bruxismo em Vigília.

Seja por causa do estresse, da ansiedade ou pela realização de atividades de elevada demanda de concentração , o aumento da tensão muscular geral devido ao apertamento dentário excessivo poderá acarretar em quadros de dores crônicas.

O tratamento nestes casos costuma envolver a prescrição de medicação, além da indicação de técnicas tradicionais como as terapias manuais, a termoterapia, a laserterapia e aplicação de TENS (neuroestimulação elétrica transcutânea).

Além de retirar o paciente do quadro álgico, é fundamental que o profissional atue na origem do problema.

Mas quando se trata de desbalanço muscular, como auxiliar os pacientes se livrarem de maus hábitos e reassumir o controle muscular da região?

 

Biofeedback Muscular: Ideia antiga, aplicação recente

O Biofeedback Muscular não é uma área nova de pesquisa e os princípios são bem simples de entender.

Este recurso utiliza conceitos da psicologia, como o condicionamento operante, para favorecer o aprendizado a longo prazo e é baseado em princípios biológicos da neuroplasticidade cerebral.

Nós vamos discutir os funcionamentos da técnica a seguir, mas em termos simples, imagine ser possível oferecer feedback ao paciente sobre o quão contraído está certo grupo muscular.

Isso permitiria (re)educá-lo sobre como utilizar o músculo.

Essa re-educação é útil para muitas áreas, não só a Odontologia. Por exemplo, com esse feedback muscular, é possível auxiliar pacientes que se recuperam de AVCs a reassumir controle sobre as regiões afetadas.
Por que o biofeedback ainda não é popular se funciona tão bem?

A questão para aplicação da metodologia sempre foi:

Como usá-la se não temos acesso a instrumentos objetivos, acessíveis também às pequenas clínicas, para medir atividade muscular?

Afinal de contas, há vários fatores que influenciam a popularidade de um tratamento. Não basta que seja funcional, o ideal é que tenha poucos efeitos colaterais, seja o mínimo intrusivo possível e tem que ser acessível financeiramente.

O problema é que a aparelhagem para explorar o biofeedback permaneceu, por muitas décadas, pouco acessível aqui no Brasil. Isto ocorreu principalmente pelo alto preço de produção e de importação desse tipo de equipamento eletrônico no nosso país.

Em países da Europa e nos Estados Unidos, a técnica de Biofeedback já é uma realidade para grande parte dos quadros que requerem estimular a consciência corporal nos pacientes. Para o bruxismo de vigília, por exemplo, comumente decorrente do estresse, é um tratamento com resultados muito significativos.

 

Uma realidade para clínicas odontológicas brasileiras

Antes x Depois

Esta situação começou a mudar com os avanços recentes da eletrônica digital, da miniaturização dos componentes e do surgimento de empresas nacionais dispostas a criar tecnologia avançada para este setor.

Após vários anos de pesquisa científica e de desenvolvimento tecnológico, o Biofeedback finalmente se tornou acessível financeiramente para clínicas e consultórios brasileiros.

Hoje em dia é possível aplicar esta técnica através de equipamentos portáteis (sem fio) e com custos mensais acessíveis, o que permite considerá-lo um investimento de alto retorno financeiro e com resultados clínicos relevantes.

Vamos mergulhar no funcionamento da metodologia de tratamento e nos resultados esperados.

 

Como funciona o tratamento à base de Biofeedback Muscular?

Podemos enxergar o tratamento de biofeedback muscular por eletromigrafia consistindo de três pilares:

1. Condicionamento operante
2. Neuroplasticidade
3. Eletromiografia.

Antes de discutirmos os conceitos-base para o tratamento, vamos sair da prática para a teoria: dar uma olhada como funciona um tratamento típico para um paciente com, digamos, bruxismo de vigília.

Essa é uma condição que pode ser diagnosticada pelo Odontólogo e cujo tratamento com biofeedback tem se mostrado altamente eficaz.

A metodologia típica do tratamento

O paciente normalmente vem indicado por profissionais nas áreas de Odontologia, Neurologia, Fisioterapia ou Fonoaudiologia que estão investigando as dores de cabeça e que descobrem as causas musculares.

Para iniciar, é realizada uma análise inicial do paciente. Nesta etapa analisamos o histórico do surgimento das dores e realizamos testes para analisar os músculos envolvidos. No equipamento de biofeedback, medimos o estado inicial da tensão muscular para registrar seu progresso.

Durante as sessões, o paciente receberá o equipamento de biofeedback sobre o músculo a ser tratado e poderá acompanhar, em tempo real, o nível de contração muscular. A plataforma, com atividades lúdicas, guiará o paciente a retomar o controle da região, reduzindo a dor.

O tratamento tem duração de 10 sessões. A cada sessão, o paciente acompanhará seu progresso de modo quantificado, com a porcentagem de redução na atividade muscular da região da dor. Menos tensão muscular, menos dor.

1. Condicionamento operante e o biofeedback

Este aprendizado é baseado no conceito de condicionamento operante, técnica de aprendizado elaborada por Skinner na década de 30. Este método permite a modelagem de comportamentos através de estímulos ambientais.

De acordo com essa linha de estudo, os hábitos podem ser modificados através do oferecimento de reforços: as recompensas nos levam a repetir uma determinada ação, e por outro lado, as punições nos fazem tender a não voltar a realizar um determinado comportamento.

Uma analogia seria uma criança que tende a não pôr o dedo na tomada novamente após receber um choque elétrico. De forma contrária, esta mesma criança poderá criar o hábito de tomar banho antes de dormir caso receba elogios frequentes por esta ação.

Mas qual é a relação entre o Biofeedback e o condicionamento operante?

Durante as sessões de Biofeedack os pacientes recebem, a todo momento, respostas sobre o seu próprio desempenho muscular através dos jogos no computador.

Nas sessões de relaxamento os pacientes recebem recompensas ao reduzir a tensão dos músculos e também recebem feedbacks negativos sempre que o tônus muscular é aumentado ou quando realizam contrações sem finalidades específicas (movimentos parafuncionais).

Com o avançar das sessões de treinamento, os pacientes assimilam este conhecimento e tornam-se condicionados a reduzir os níveis de contração muscular de forma espontânea (inconsciente) e voluntária (consciente).

2. A neuroplasticidade e o biofeedback

Este aprendizado só é possível devido a uma capacidade do nosso cérebro chamada de Neuroplasticidade. Os nossos neurônios estão em constante mudança, mesmo durante a fase adulta, e isto garante a nossa adaptação a mudanças no meio ambiente.

O nosso cérebro evoluiu para realizar as tarefas gastando o mínimo de energia possível, e para isto acontecer, é preciso otimizar as redes e conexões dos neurônios (sinapses). Quanto mais repetimos uma atividade, mais fácil o nosso cérebro responde, e de forma mais eficiente.

Nas primeiras sessões de Biofeedback o nosso cérebro aprende a habilidade de controlar a tensão muscular. Neste processo os neurônios constroem novas novas vias otimizadas de comunicação.

Já nas sessões seguintes, os pacientes adquirem o aprendizado através do reforço e repetição. Desta forma, garantimos que os efeitos irão durar por um longo prazo. Por esta razão é importante que o paciente realize o treinamento até o final, mesmo que o quadro álgico já tenha sido controlado.

3. A eletromiografia e o biofeedback

As pessoas em geral costumam ter dificuldade em controlar e os níveis de tensão muscular, principalmente durante os quadros agudos de dor e em momentos de estresse.

Isto ocorre porque a propriocepção muscular não é uma via sensorial tão especializadas nos seres humanos como a visão, por exemplo.

Mas a boa notícia é que este condicionamento pode ser adquirido de forma efetiva com o uso de aparelhos eletrônicos. A técnica mais utilizada para este fim é a Eletromiografia de superfície, recurso que permite a captação de sinais elétricos através de eletrodos posicionados na pele dos pacientes.

Estes sinais são enviados para o computador por tecnologia sem fio, são processados em tempo real e fornecidos de volta ao pacientes através de vias sensoriais, como a visão e audição, por exemplo.

A maior vantagem do Biofeedback é que trata-se de uma recurso ativo, então o paciente não se torna dependente da máquina. Pelo contrário, torna-se apto a relaxar a sua musculatura e usufruir dos seus benefícios durante todo o dia. Além disso, são empoderados com a capacidade de evitar as crises dolorosas assim que percebem que os sintomas estão começando a surgir.

 

As vantagens do tratamento para o paciente

Em termos práticos, quais são os pontos positivos do Biofeedback Muscular por Eletromiografia para os pacientes?

Quantificação do Progresso

Essa é uma tendência na área de saúde para esse século que começou a se tornar realidade hoje. Agora é possível não só tratar, mas demonstrar o progresso ao paciente.

O equipamento de eletromiografia está, a cada sessão, acompanhando o nível de tensão muscular na região sendo tratada. Por isso, é possível gerar relatórios a cada sessão com o progresso dos pacientes, em termos da redução da tensão muscular média (menos tensão, menos dor).

Essa possibilidade é revolucionária, especialmente para tratamento de quadros de dores crônicas, nos quais é difícil quantificar a evolução dos pacientes, devido ao caráter subjetivo e pessoal da dor. Além disso, também é importante para manter o engajamento do paciente no tratamento.

Efeitos de longo prazo

É comum pacientes chegarem no consultório de um especialista em DTM e dor orofacial tendo exaurido outras opções de tratamento.

O cenário mais comum, por se tratar de dores persistentes, é o paciente ser recomendado a medicamentos cada vez mais fortes para dor. Isso sem necessariamente melhorar a qualidade de vida, uma vez que o analgésico não age no sintoma (tensão muscular excessiva), apenas aliviando o efeito.

Ao desenvolver a consciência corporal dos pacientes, agimos sobre a tensão muscular desproporcional e, por conseguinte, reduzindo a dor. Um estudo de revisão publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology reuniu dezoito ensaios clínicos que acompanharam a evolução clínica dos pacientes após o final do tratamento (estudos com follow-up). Esta metanálise demonstrou uma retenção dos benefícios do tratamento com resultados significativos em avaliações entre 03 e 60 meses após o término da última sessão de Biofeedback.

Não-invasivo

A base do biofeedback muscular é a eletromiografia de superfície, técnica na qual o eletrodo é posicionado sobre a pele do paciente, de modo não-invasivo, acompanhando o nível de tensão muscular. O aparelho de Biofeedback não emite nenhum tipo de corrente com efeito terapêutico, portanto os pacientes não são expostos a choques elétricos ou variações de temperatura.

Assim, o Bioeedback é uma técnica segura e muito bem aceita pelos pacientes.

 

Aplicações no mundo odontológico e a eficácia do biofeedback muscular

3 grandes estratégias de aplicação estabelecidas para o biofeedback por eletromiografia.

  • Relaxamento muscular
  • Consciência corporal
  • Fortalecimento muscular

Cada estratégia pode ser aplicada a diferentes quadros clínicos. Como já vimos, o biofeedback muscular por eletromiografia vai além da área de odonto, mas vamos nos restringir a aplicações práticas de seu dia a dia a seguir.

Cefaléia tensional

Muitos pacientes chegam ao consultório relatando uma sensação de “aperto” na cabeça, de forma difusa, conhecida como Cefaleia tensional.

É um tipo importante de dor de cabeça e que tem relação direta com o excesso de contração dos músculos da região. Dentre eles, os principais são o músculos Temporal, Frontal, Masseter e muitas vezes com repercussão para músculos do pescoço como o Esternocleidomastoideo.

Como são os tratamentos hoje?

  • Medicamentos para dor e relaxantes musculares (muitas vezes sem a supervisão adequada)
  • Técnicas como a estimulação elétrica nervosa transcutânea,
  • Ultrassom
  • Compressas aquecidas (termoterapia)

O problema é que todas estas técnicas têm efeito de curto prazo e não resolvem a real causa do problema que é o excesso de tônus e tensão muscular. Por esse motivo o Biofeedback é um tratamento altamente recomendado para aliviar a dor aguda e de forma preventiva, reduzindo inclusive a necessidade de medicação.

Bruxismo de vigília

Esta patologia é cada vez mais frequente nos consultórios odontológicos, apesar do alto índice de subdiagnosticos devido ao desconhecimento dos profissionais.

Estes pacientes têm o hábito não-funcional de apertar ou encostar os dentes, durante o dia, e de realizar movimentos como morder as bochechas, bater os dentes de forma rítmica e realizar movimentos laterais com a boca. Em casos mais graves, é possível progredir para disfunções temporomandibulares, e portanto em alterações mecânicas na articulação.

Estes movimentos ocorrem, notadamente, em situações de alta demanda de atenção, como ao dirigir um carro, ao utilizamos o celular ou durante o trabalho. Estes episódios são mais frequentes em momentos estressantes da vida (falecimentos de conhecidos, após presenciar assaltos, ou na volta às aulas/trabalho).

Alguns os sintomas comuns:

  • dor muscular na região orofacial;
  • hipersensibilidade dentinária;
  • as lesões na cervical dos dentes (como a abfração, por exemplo);
  • hipervigilância.

Os tratamentos atuais são baseados na correção destes desgastes dentais e pelo uso de medicações ansiolíticas e análgesicos. Mas novamente, estas intervenções têm efeitos de curto prazo e não evitam o aparecimento de novas crises.

Com o Biofeedback o paciente aprende a relaxar a musculatura mastigatória, e ao mesmo tempo, aprende a controlar os hábitos hipermotores.

Disfunção tempomandibular (DTM)

A articulação temporomandibular é uma importante e complexa estrutura que garante os movimentos mastigatórios e a articulação da fala. Porém, diversos fatores físicos e químicos podem gerar a perda da homeostase e da função desta região.

Em muitos casos, a origem do problema está na própria articulação (artralgias) ou em estruturas intra-articulares, como o disco. A dor causada por estas disfunções pode levar ao aumento da contração dos músculos elevadores da mandíbula, como estratégia protetiva e natural do nosso cérebro.

Nestes casos, o Biofeedback poderá agir no relaxamento e alívio da dor muscular.

Porém, em outros casos, a dor tem origem na própria musculatura (dor miofascial) e ocasiona alterações funcionais e desequilíbrios nesta articulação, a chamada DTM muscular. O tratamento mais comum até então era com o uso da placa intraoclusal, mas ensaios clínicos já apontam o biofeedback como mais eficaz no longo prazo.

Além disso, os pacientes relatam maior satisfação com o biofeedback pela sensação de empoderamento, eliminando a dependência da placa intraoclusal.

Conclusão: O biofeedback muscular merece a atenção dos profissionais de Odonto?

Um tratamento para causar impacto positivo na vida dos pacientes precisa ser melhor que as alternativas, viável financeiramente e estar disponível no mercado (através de profissionais capacitados).

A academia já demonstrou a eficácia do biofeedback muscular por eletromiografia em vários contextos e, agora que se tornou viável financeiramente, mais um motivo para profissionais considerarem uma certificação.

Além disso, as doenças tratadas pela técnica estão bem conectadas com um dos grandes males da sociedade ocidental nesse século: o estresse. Para qualquer odontólogo, poder se diferenciar para tratar desses problemas é uma ótima escolha profissional.

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Espero que tenha gostado!

Abraços e até o próximo artigo.

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