Como identificar subtipos de Bruxismo em Vigília

ENDOFENÓTIPOS

O diagnóstico clínico é a base para qualquer tratamento na área de saúde. Mas na prática, existem pequenas variações que não podem ser explicadas pelas definições tradicionais de manuais de diagnóstico.

Pacientes classificados com a mesma síndrome podem apresentar pequenas variações genéticas e também podem sofrer influências ambientais diferentes que alteram a expressão desse genes (Figura 1).

endofenótipos

Figura 1. Conceito de endofenótipos. (Fonte: Blog Neurociencia Clínica de Madrid

Uma forma de mapear essas pequenas variações é com a análise de endofenótipos. Esse termo é utilizado quando queremos subdividir pacientes com sintomas específicos e que possuem um associação genética bem definida¹.

Esta publicação tem como objetivo introduzir o conceito de endofenótipos do bruxismo em vigília e abordar os principais sintomas clínicos e eletrofisiológicos (biomarcadores) que determinam essa classificação.

 

BRUXISMO

ciclo circadiano

Figura 2. Ciclo circadiano. (Fonte: fuzzyscience)

De acordo com Academia Americana de Dor Orofacial, o bruxismo é definido como uma atividade parafuncional diurna ou noturna que inclui ranger, apertar ou esfregar os dentes entre si². Segundo um consenso internacional, a classificação do Bruxismo em vigília pode ser realizada com o autorrelato do paciente, o exame clínico e o estudo eletromiográfico da função muscular³.

Esse critério diagnóstico é amplo, já que o padrão de contração muscular pode diferir entre pessoas classificadas da mesma forma. Do ponto de vista funcional, uma contração em “apertamento” difere bastante de contrações rápidas realizados devido à agitação psicomotora.

 

SUBTIPO I: bruxismo em vigília com predomínio de contrações tônicas

Os pacientes deste grupo apresentam uma elevação generalizada do tônus muscular, que é caracterizada por contrações leves/moderadas mantidas por longos períodos de tempo.

Essa elevação global da tensão é realizada por fibras neuromusculares lentas (tipo I), e o seu excesso é responsável por microfraturas nas fibras musculares. Portanto, este grupo tem maior predisposição a desenvolver mialgias devido à sobrecarga.

ansiedade

Figura 3. Representação de uma pessoa com ansiedade. (Fonte: Blog I love to know)

Do ponto de vista odontológico, pacientes com este perfil costumam apresentar lesões dentárias cervicais, localizadas na face vestibular, a chamada abfração dental (Figura 4).

Isto ocorre devido ao contato excessivo entre os dentes antagonistas que leva a microfraturas nessa estrutura. Este quadro costuma ser associado à hipersensibilidade dentinária.

abfração dental

Figura 4. Abfração dental. (Fonte: Blog Doctor Spiller)

Porém, é importante notar que este sintoma não é específico para o Bruxismo em vigília e não pode ser considerado como um critério de diagnóstico isolado. Outros agentes estressores como a escovação excessiva e a erosão química também podem contribuir para o desenvolvimento da abfração dental.

Já do ponto de vista psicomotor, estes pacientes tendem a ser hipervigilantes e a somatizar a ansiedade através do aumento da tensão dos músculos. Esse estado constante de reação ao ambiente ocasiona uma rigidez das estruturas, de forma que estas pessoas costumam realizar poucas contrações fásicas (rápidas) e apresentam baixa agitação psicomotora. Além disso, costumam utilizar os músculos acessórios da respiração de forma excessiva.

 

SUBTIPO II: bruxismo em vigília com predomínio de contrações fásicas

Esse segundo subtipo é caracterizado pelo excesso de contrações parafuncionais fásicas (rápidas). De forma geral, o tônus destes pacientes é normal durante o repouso, porém a agitação psicomotora faz com que a pessoa não consiga passar por longos períodos de tempo sem realizar movimentos com a mandíbula.

abfração dental

Figura 5. Abfração dental. (Fonte: Blog Doctor Spiller)

Em alguns casos, esses pacientes mimetizam instrumentos musicais com os dentes e realizam contatos oclusais seguindo o ritmo de canções. Portanto, as fibras musculares mais recrutadas são as rápidas (tipo II).

Os pacientes deste grupo costumam realizar movimentos bruscos e de elevado impacto entre os dentes antagonistas, portanto as lesões mais frequentes são as fraturas dentais (Figura 6). Um estudo de Eletromiografia demonstrou que, pacientes com perda dental progressiva apresentam elevação da quantidade de contrações fásicas por minuto⁴.

fraturas dentais

Figura 6. Fraturas dentais. (Fonte: Blog sorrisologia)

Além disso, esses pacientes têm o perfil de inquietação psicomotora e não toleram passar muito tempo na mesma posição sem se movimentar. É possível que a etiologia desses movimentos estereotipados tenha ligação com mecanismos cerebrais do transtorno de déficit de atenção (subtipo hiperativo-impulsivo) e distúrbios hipermotores⁵.

 

Eletromiografia de superfície

Uma forma objetiva de diferenciar estes dois subtipos é pelo uso de Biomarcadores. Estes perfis podem ser facilmente diferenciados através de uma avaliação eletromiográfica de repouso realizada no consultório.

Os pacientes são instruídos a permanecer imóveis durante longos períodos de tempo (pelo menos por dez minutos) e os dados musculares são processados automaticamente por algoritmos no computador.

eletromiografia de superfície

Figura 7. Representação da Eletromiografia de superfície.

O subgrupo com predomínio de contrações tônicas apresenta elevação da Potência muscular de repouso. Essa elevação do tônus muscular faz com a linha de base da curva elétrica seja deslocada para cima (Figura 8B). Mas, por outro lado, a quantidade de contrações fásicas por minuto costuma ser normal. Isto faz sentido, já que a rigidez e o estado de alerta fazem com que a pessoa evite movimentos rápidos.

estatísticas em biofeedback

Figura 8. Participante com bruxismo em vigília com predomínio de contrações tônicas. A) resultado do Z-score: note que o biomarcador de contrações fásicas por minuto está dentro da normalidade, porém a Potência muscular de repouso (relacionada com o tônus) está aumentado em relação à base de dados de normalidade (neuroUP Database); B) representação gráfica do EMG no tempo: o número de picos de contrações fásicas é baixo durante os 10 minutos de coleta de eletromiografia; C) tabela com os valores absolutos e resultado do Z-score (comparação com a neuroUP Database): o único parâmetro alterado foi a potência muscular de repouso.

De forma contrária, os pacientes com predomínio de contrações fásicas costumam apresentar a potência muscular de repouso normal, já que o tônus muscular não tende a ser aumentado (Figura 9B). E por outro lado, apresentam um excesso de movimentos rápidos do tipo fásico.

estatísticas em biofeedback

Figura 9. Participante com bruxismo em vigília com predomínio de contrações fásicas. A) resultado do Z-score: note que o biomarcador de contrações fásicas por minuto está aumentado e a Potência muscular de repouso (relacionada com o tônus) está normal em relação à base de dados de normalidade (neuroUP Database); B) representação gráfica do EMG no tempo: o número de picos de contrações fásicas é baixo durante os 10 minutos de coleta de eletromiografia; C) tabela com os valores absolutos e resultado do Z-score (comparação com a neuroUP Database): o único parâmetro alterado foi o número de contrações fásicas por minuto.

 

Considerações finais

A eletromiografia é um instrumento objetivo e que pode ser inserido na rotina de avaliação em serviços que trabalham com DTM e dor orofacial. O uso destes biomarcadores pode auxiliar na decisão diagnóstica e permite o acompanhamento da evolução de tratamentos.

Você gostaria de utilizar essa metodologia no seu consultório?

Conheça a certificação profissional em Biofeedback

 

Referências

¹ Gottesman II, Gould TD. The endophenotype concept in psychiatry: etymology and strategic intentions. Am J Psychiatry. 2003 Apr;160(4):636-45.
² American Academy of Orofacial Pain. Okeson JP, ed.: Orofacial pain. Guidelines for assessment, diagnosis, and management. Chicago: Quintessence Publishing Co .. 1996
³ Lobbezoo F, Ahlberg J, Glaros AG, Kato T, Koyano K, Lavigne GJ, de Leeuw R, Manfredini D, Svensson P, Winocur E. Bruxism defined and graded: an international consensus. J Oral Rehabil. 2013 Jan;40(1):2-4. doi: 10.1111/joor.12011. Epub 2012 Nov 4.
⁴ Kawakami S, Kumazaki Y, Manda Y, Oki K, Minagi S. Specific diurnal EMG activity pattern observed in occlusal collapse patients: relationship between diurnal bruxism and tooth loss progression. PLoS One. 2014 Jul 10;9(7):e101882. doi: 10.1371/journal.pone.0101882. eCollection 2014.
⁵ Four oral motor disorders: bruxism, dystonia, dyskinesia and drug-induced dystonic extrapyramidal reactions. Clark GT, Ram S. Dent Clin North Am. 2007 Jan;51(1):225-43, viii-ix. Review.

Comentários