O cérebro com bruxismo em vigília parte II – Estresse

O bruxismo em vigília é um comportamento dos músculos mastigatórios ¹ que pode ser um fator de risco para dores musculares, fraturas dentais e lesões periodontais. Esse hábito também pode desencadear falhas repetitivas nos trabalhos de restaurações dentais e próteses.

Porém, ainda se sabe pouco sobre as bases neurofisiológicas que levam a essa condição. Esse artigo tem o objetivo de analisar a gênese dos movimentos mastigatórios parafuncionais, tomando como base os circuitos cerebrais relacionados com a motricidade e o estresse.

A pergunta principal é:

Por que a pessoas apertam os dentes quando não precisam?

 

O CÉREBRO DURANTE A MASTIGAÇÃO

Mas antes, precisamos relembrar como funciona o controle dos músculos mastigatórios. O nervo trigêmeo é controlado por diferentes mecanismos cerebrais, de acordo o tipo de movimento solicitado. O seu controle é diferente quando realizamos movimento funcionais, como o de mastigar alimentos, ou quando realizamos contrações involuntárias em resposta ao estresse.

 

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O sistema motor somático é responsável pelos MOVIMENTOS VOLUNTÁRIOS, ou seja,  as contrações que ocorrem quando tomamos decisões conscientes. Nesse caso, diversas áreas do córtex cerebral são ativadas para dar suporte às ações de planejamento e execução dos movimentos. Esse processamento ocorre em circuitos com a participação dos núcleos da base, tálamo, cerebelo e córtex cerebral (Figura 1).

 

Figura 1. Circuito cortico-estriado-talâmico. Os núcleos da base e o córtex cerebral atuam de forma integrada e em sistema de retroalimentação.  Fonte: Neupskey

 

De forma diferente, o SISTEMA MOTOR EMOCIONAL é um circuito ainda pouco conhecido e responsável pelas reações automáticas de proteção. Essas respostas motoras podem acontecer diante situações de medo, notadamente com atitudes de “congelamento” (aumento de tensão muscular), ou com comportamentos de fuga em resposta a estímulos nocivos.

Entraremos em mais detalhes sobre esse circuito durante o texto.

O CÉREBRO COM ESTRESSE CRÔNICO

Mas como é que o nosso cérebro reage ao estresse?

A vida moderna nos trouxe um aumento repentino da necessidade de tomar decisões complexas. O estresse é uma resposta adaptativa a esses eventos que nos desafiam ou que nos colocam em perigo. E, até certo ponto, o estresse é uma reação benéfica para o nosso desempenho social.

cérebro com bruxismo em vigília

O estresse pode ser caracterizado como um conjunto de reações do nosso organismo a estímulos que ameaçam a nossa homeostase. No estresse, a causa externa dessas reações podem ser facilmente identificáveis e a cadeia de respostas tende a cessar com o desaparecimento da sua fonte estressora.

Mas, apesar da similaridade, é importante notarmos que o Estresse e a Ansiedade são condições clínicas diferentes. No segundo caso, o nosso corpo desencadeia as mesmas reações fisiológicas da primeira, porém na ausência de uma causa estressora aparente.

Essas reações são desencadeadas através da ativação de um circuito envolvendo o córtex e o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal².   

A primeira resposta do nosso corpo é a liberação de Adrenalina, hormônio de ação rápida e que leva a um aumento abrupto da nossa disposição, agilidade e liberação de energia para enfrentar esses desafios (Figura 3).

As suas principais consequências são o aumento da tensão dos músculos, dos batimentos cardíacos, da frequência respiratória, da produção de suor, da dilatação pupilar e da liberação de açúcar (energia).

Figura 3. Fisiologia do estresse. Os eventos estressores ativam ações rápidas (Adrenalina) e lentas (Cortisol). Imagem: Hopestreetcentre.

 

Em seguida, ocorre a liberação do Cortisol, hormônio que passa mais tempo na corrente sanguínea e que regula a manutenção desse estado de alerta até o final do evento estressor. O esperado é que ocorra uma diminuição desses hormônios após o desaparecimento do evento estressor. Desta forma, a pessoa pode retornar ao seu estado natural de repouso (Figura 4A).

adrenalina cortisol - DTM - músculos mastigatórios

Figura 4. Relação entre Estresse, Adrenalina e Cortisol. Imagem: hopestreetcentre

 

O problema começa quando ocorre uma sobreposição desses eventos. Se um novo agente estressor vir a tona, antes mesmo do nível de Cortisol reduzir, então esse novo pico de Adrenalina irá desencadear uma nova subida desse segundo hormônio (Figura 4B).

Além disso, muitos desses eventos estressores acontecem de forma contínua ou por longos períodos de tempo. Esses estímulos podem estar relacionados com trabalho, relacionamentos, condições de moradia ou violência urbana.

Então, essa cadeia de reações passa a acontecer de forma prolongada, de maneira a ser considerado como Estresse crônico.

Diversos estudos com animais demonstraram que, essa condição está relacionada com a redução do volume e da densidade de conexões sinápticas no córtex pré-frontal e no sistema límbico ³.

Em humanos, um estudo demonstrou que pessoas com estresse ocupacional crônico apresentaram atrofia nos núcleos da base e redução da massa cinzenta no córtex pré-frontal, evidenciados por análise de Imagem por ressonância magnética ⁴

Mas o que o estresse tem a ver com os músculos mastigatórios?

 

 

CÉREBRO COM BRUXISMO EM VIGÍLIA

Como vimos anteriormente, uma das principais respostas ao estresse é a elevação do tônus dos músculos. Um estudo demonstrou que a aplicação de um teste neuropsicológico com elevada demanda de concentração (Teste Stroop modificado) foi capaz de elevar os níveis salivares de cortisol e de elevar a atividade dos músculos masseter e da porção anterior do temporal ⁵.

A mastigação é uma das principais reações de enfrentamento ao estresse, tanto em animais com em seres humanos ⁶. Um estudo demonstrou que pessoas saudáveis apresentaram redução nas dosagens de cortisol e na geração de emoções negativas ao consumir goma de mascar em um experimento de estresse agudo ⁷ .

Talvez por esse motivo, muitos pacientes com Bruxismo em vigília relatam uma breve sensação de bem-estar ao apertar os dentes ou morder objetos.

Uma possível explicação é o fato de que a mastigação é capaz de aumentar os níveis séricos da Serotonina ⁸, substância capaz de suprimir a atividade nociceptiva.

Um estudo demonstrou que a atividade mastigatória ativou significativamente o córtex prefrontal medial (ventromedial e ventrolateral) ⁹. Essas regiões desempenham um papel importante na regulação da atividade motora do nervo trigêmio em resposta a estados emocionais.

Essa modulação acontece através de vias entre o córtex prefrontal, o sistema límbico (cingulado anterior, insula e a amígdala) e vias descendentes para a medula, através da substância cinzenta periaquedutal (Figura 5).

Figura 5: Sistema motor emocional. A substância cinzenta periaquedutal é um núcleo na medula que regula as respostas motoras em decorrência do estresse, em ação conjunta entre o córtex e as regiões límbicas.

 

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O Problema é que esse comportamento pode ser inofensivo, no curto prazo, mas tem o potencial para promover efeitos deletérios, quando ocorrer em excesso.

A principal consequência negativa do Bruxismo em vigília é a dor muscular. Em muitos casos, o paciente poderá desenvolver uma Disfunção temporomandibular do tipo muscular, caso a função dessa articulação seja comprometida. Além disso, a dor passa a ser um gatilho para a co-contração protetora dos músculos, gerando um ciclo vicioso.

Figura 4. Loop do hábito do bruxismo em vigília. A dificuldade no gerenciamento do estresse faz com que a pessoa contraia os músculos mastigatórios. Esse ato desencadeia os circuitos serotoninérgicos descendentes, porém essa sensação dura poucos segundos e a necessidade de movimentar-se volta a aparecer.

É importante notar que, segundo o último consenso internacional, publicado em 2018, o Bruxismo em vigília também pode ocorrer durante contrações dos músculos mastigatórios sem contato dental ¹. O bracing é um padrão de contração na qual a mandíbula encontra-se rígida devido ao excesso de ativação dos músculos mastigatórios, mesmo com os dentes desencostados.

SOLUÇÃO?

A forma mais efetiva de reduzir esses hábitos é através do condicionamento do cérebro. Com o treinamento correto, a pessoa se torna capaz de perceber os gatilhos e relaxar os músculos mastigatórios, sempre que necessário.

A técnica mais efetiva para esse fim é o Biofeedback. Esse treinamento é baseado no fornecimento de reforços positivos e negativos, de forma sequencial. Ou seja, promover reforços positivos quando a pessoa atingir o relaxamentos dos músculos, dessa forma, ensinar as melhores estratégias ao paciente e, por outro lado, promover reforços negativos sempre que o nível de contração muscular estiver aumentado.

 

 

Conheça a certificação em Biofeedback

 

O Biofeedback muscular é realizado com sensores que captam as contrações dos músculos em tempo real. O paciente recebe informações precisas da própria tensão dos músculos através de estímulos audiovisuais.

Desta forma, o paciente aprende ao mesmo tempo a:

  • Reduzir o tônus dos músculos
  • Reduzir a quantidade de movimentos parafuncionais

 

Nós preparamos um vídeo que demonstra o funcionamento do Biofeedback muscular em diferentes posições da mandíbula:

Você gostaria de saber mais informações sobre essa ferramenta?

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Ubirakitan Maciel

Diretor científico da neuroUPMestre em Neurociências pela UFPE

contato@neuroup.com.br

 

 

Referências:

  1. Lobbezoo F, Ahlberg J, Raphael KG, Wetselaar P, Glaros AG, Kato T, Santiago V,
    Winocur E, De Laat A, De Leeuw R, Koyano K, Lavigne GJ, Svensson P, Manfredini D.
    International consensus on the assessment of bruxism: Report of a work in
    progress. J Oral Rehabil. 2018 Jun 21
  2. Yukihiko Yasui (July 5th 2017). Amygdala and Jaw Movements: A Hodological Review, The Amygdala Barbara Ferry, IntechOpen, DOI: 10.5772/67581.
  3. Lucassen PJ, Pruessner J, Sousa N, Almeida OF, Van Dam AM, Rajkowska G, Swaab
    DF, Czéh B. Neuropathology of stress. Acta Neuropathol. 2014 Jan;127(1):109-35.
    doi: 10.1007/s00401-013-1223-5. Epub 2013 Dec 8. Review. PubMed PMID: 24318124;
    PubMed Central PMCID: PMC3889685.
  4. Blix E, Perski A, Berglund H, Savic I. Long-term occupational stress is associated with regional reductions in brain tissue volumes.. PLoS One. 2013 Jun 11;8(6):e64065. doi: 10.1371/journal.pone.0064065. Print 2013.
  1.  Bakke M, Tuxen A, Thomsen CE, Bardow A, Alkjaer T, Jensen BR. Salivary cortisol level, salivary flow rate, and masticatory muscle activity in response to acute mental stress: a comparison between aged and young women. Gerontology. 2004 Nov-Dec;50(6):383-92.
  2. Kubo K, Iinuma M, Chen H. Mastication as a Stress-Coping Behavior. BioMed Research International. 2015;2015:876409. doi:10.1155/2015/876409.
  3. Scholey A, Haskell C, Robertson B, Kennedy D, Milne A, Wetherell M. Chewing
    gum alleviates negative mood and reduces cortisol during acute laboratory
    psychological stress. Physiol Behav. 2009 Jun 22;97(3-4):304-12.
  4. Mohri Y, Fumoto M, Sato-Suzuki I, Umino M, Arita H. Prolonged rhythmic gum
    chewing suppresses nociceptive response via serotonergic descending inhibitory
    pathway in humans. Pain. 2005 Nov;118(1-2):35-42.
  5. Prolonged gum chewing evokes activation of the ventral part of prefrontal cortex
    and suppression of nociceptive responses: involvement of the serotonergic system.

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