O cérebro com Cervicalgia

O cérebro com Cervicalgia

Sabe o que acontece com o cérebro de uma pessoa com dor na região cervical? Esse e-book foi produzido com foco nos principais circuitos cerebrais envolvidos com a Cervicalgia.  Os principais objetivos são revisar a Neurofisiologia da dor e analisar as principais estratégias de controle dos sintomas nos Sistemas Nervosos Central e Periférico.

Qual a relação entre o cérebro e as dores cervicais?

As cervicalgias impactam negativamente a qualidade de vida das pessoas e, em muitos casos, tendem a ser incapacitantes. Mas, como será que o nosso cérebro reage durante esses episódios?

A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, mas que funciona como mecanismo natural de proteção. Essa reação nos alerta de que algo está errado com a nossa fisiologia.

Dessa forma, o nosso Sistema nervoso central solicita uma série de mudanças físicas e químicas no corpo, para tentar atingir a homeostase. Essas reações envolvem diversas áreas subcorticais, corticais e do tronco cerebral e tendem a acontecer independente da nossa vontade (respostas automáticas).

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Então, quais são as mudanças que acontecem no corpo em resposta aos estímulos dolorosos?

Em situações de estresse, as principais reações de defesa do nosso corpo são: o aumento da frequência respiratória e cardíaca, o aumento da pressão arterial, a dilatação da pupila, a ativação de circuitos cerebrais relacionados com a dor, o aumento da sudorese e o aumento no nível de contrações dos músculos.

Esse último, tem uma repercussão muito importante, já que pode criar um ciclo vicioso e amplificar a dor sentida pelo paciente. Isso acontece devido ao excesso de tensão dos músculos em resposta à dor.

E, o mais interessante é que a ativação desses sistemas pode acontecer por estímulos de diversas naturezas. Portanto, uma dor articular, por exemplo, pode desencadear a mesma série de mudanças na fisiologia que uma dor de origem muscular ou por discopatias. 

CO-CONTRAÇÃO PROTETORA

Conforme apresentado anteriormente, os nossos músculos tendem a reagir quando estamos sentindo dor. Essas contrações têm o objetivo de proteger a estrutura e evitar que a pessoa lesione ainda mais as regiões envolvidas.

💡 Na prática, ocorre a ativação simultânea de músculos agonistas e antagonistas, portanto o movimento tende a ser limitado e ocorre rigidez ou sensação de travamento. Essa condição também pode ser chamada de Bracing.

A consequência é a rigidez e a sensação de tensão na estrutura avaliada. Esse padrão é muito presente em pessoas com Cervicalgias, DTM, Cefaleias, Fibromialgia e dores crônicas em geral.

Portanto, as pessoas tendem a ativar a musculatura extensora mesmo quando estão numa posição de relaxamento (flexão anterior do pescoço).

Uma forma de avaliar essa resposta é realizando o teste de Flexão-relaxamento. Essa avaliação analisa a resposta dos músculos extensores cervicais durante a flexão do pescoço (fenômeno de flexão-relaxamento)

Uma forma objetiva de mensurar essa atividade é com a técnica de Biofeedback muscular. Esse recurso utiliza sensores para medir com precisão a resposta elétrica dos músculos superficiais. O vídeo à seguir demonstra o padrão fisiológico de ativação dos Eretores espinhais durante extensão cervical e o o correto relaxamento na posição contrária:

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AS ETAPAS DO PROCESSAMENTO DA DOR

O processamento da dor envolve uma série de circuitos cerebrais. Em situações normais, quando a dor é provocada por estímulos periféricos, como em lesões teciduais, o processamento envolve as seguintes etapas: transdução, transmissão, modulação e percepção ¹.

A primeira fase envolve a transformação de estímulos mecânicos, físico ou químicos, em potencias de ação. Isso acontece nos nociceptores, estruturas especializadas em reconhecer os estímulos agressores e que iniciam a cadeia de aferência no Sistema nervoso periférico. 

Em seguida, esses impulsos são transmitidos para a medula espinhal, onde são modulados, podendo ser amplificados ou inibidos. Após essa fase, os sinais elétricos são enviados ao Tálamo, através de vias ascendentes principais.

O problema é que a sensação dolorosa também pode acontecer na ausência de estímulos reais, conhecidos ou potencialmente danosos.  Pessoas que sofreram dores intensas ou repetitivas podem desenvolver a chamada Sensibilização Central, quando ocorre o aumento da excitabilidade e da eficiência sináptica em vias centrais.

Mas, antes de falar da Sensibilização, vamos revisar os circuitos cerebrais envolvidos na dor.

O CÉREBRO COM DOR - Vias ascendentes

O Tálamo é a porta de entrada da aferência somatossensorial do cérebro. Os axônios provenientes da medula espinhal enviam as informações para esse centro de integração que envia os sinais para diversas regiões cerebrais superiores.

As principais áreas são os córtices sensoriais primários e secundários, a insula, o cingulado anterior o córtex pré-frontal ².

Fonte: Pediatric Chronic Pain: Biopsychosocial Assessment and Formulation³

Esses circuitos possuem uma ligação direta com o sistema límbico, o que explica a grande influência das emoções na percepção da dor pelos pacientes. Além disso, também possuem fortes conexões com os núcleos da base, região profunda que está relacionada com o controle de impulsos e da motricidade

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Homúnculo somatossensorial. Retirado de: cienciaconhecimentoesaberva

O córtex somatossensorial está localizado no giro pós-central e é dividido em duas regiões: primária e secundária. Essas regiões possuem um mapa com a representação sensorial de diversas regiões do corpo, portanto representam os aspectos sensório-discriminativos da dor.

O cingulado anterior é um córtex relacionado com a tomada de decisões e com o controle das emoções. Juntamente com a Ínsula (representação visceral), essas estruturas fazem parte de um circuito relacionado com a Interocepção, que é a consciência que o indivíduo tem sobre o funcionamento do próprio corpo ⁴. 

A insula possuem fortes conexões funcionais om o Córtex Prefrontal. Essa área é responsável por funções executivas, como planejamento e resolução de problemas ⁵, mas também está implicada diretamente na modulação consciente da dor. Portanto, essas interações representam o componente cognitivo-afetivo da dor.

O córtex pré-frontal também possui fortes ligações com as vias descendentes (que serão abordadas em breve) e que são capazes de aumentar ou de reduzir a sensação dolorosa de acordo com o nível de estresse.

💡 Por esse motivo, as pessoas que passam o dia preocupadas e com atenção excessiva em relação à própria dor, tendem a sentir os sintomas de forma mais intensa.

O CÉREBRO COM DOR - Vias descedentes

Após o processamento dos componentes sensorial, emocional e cognitivo da dor, essa atividade começa a estimular vias descendentes que possuem a capacidade de modular a dor.

Portanto, a informação pode ser aumentada ou reduzida de acordo com a interação com as estruturas superiores. Duas áreas são importantes nesse controle: a Substância cinzenta periaquedutal (PAG) e o Núcleo Magno da Rafe (NRM).

A Substância cinzenta Periaquedutal é o principal centro endógeno de controle da dor. Os neurônios  relacionadas com antinocicepção excitam as células no Núcleo Magno da Rafe. Estes, por sua vez,  projetam os sinais para a medula espinhal para bloquear a transmissão da dor pelas células do corno dorsal.

CONTROLE MOTOR NO CÉREBRO COM CERVICALGIA

Mas, qual é a influência desses circuitos no controle dos movimentos? 

Os músculos esqueléticos podem ser controlados voluntariamente pelo Sistema nervoso central, involuntariamente por reflexos medulares e pela atividade semi-involuntária  pelos circuitos descritos nessa publicação.

💡  Leia mais: 04 Estratégias para relaxar os músculos

A substância cinzenta Periaquedutal também exerce influência nos comportamentos de defesa, como congelamento evocado pelo medo 7.  Um estudo em animais demonstrou que a estimulação dessa região causa um aumento na excitabilidade α-motoneuronal, o que suporta o comportamento de congelamento 8

Portanto, as áreas relacionadas com a modulação da dor também possuem a capacidade de aumentar a motricidade e influenciar no tônus dos músculos.

Note que essa atividade pode ser considerada como semi-involuntária, já que é realizada sem o planejamento cortical. Porém, a grande influência do córtex pré-frontal nas vias descendentes é capaz de reduzir a resposta desses circuitos. Ou seja, as pessoas podem aprender a reduzir a influência da dor na ativação dos músculos.

As pessoas com dores crônicas costumam ter muita dificuldade para reduzir o tônus dos músculos voluntariamente. Na prática, a consciência corporal costuma estar alterada, portanto essas pessoas nem se quer percebem que estão tensionadas. Além disso, a dor limita a realização de contrações voluntárias, portanto ocorre um redução da atividade máxima. 

Ou seja, a pessoa com cervicalgia tende a apresentar o aumento da atividade basal (de repouso) e a redução da contração voluntária máxima durante a função. Portanto, ocorre um diminuição na capacidade funcional da musculatura em questão.

Biofeedback muscular da neuroUP

Por esse motivo, aprender a controlar os músculos é uma habilidade que pode beneficiar as pessoas com cervicalgia para que elas possam aprender a relaxar na hora certa e a terem controle motor durante a função.

 A técnica de Biofeedback consiste no uso de tecnologia para orientar a realização de exercícios. Esse recurso é baseado na captação de sinais musculares e a sua transformação em estímulos visuais e auditivos que podem ser facilmente compreendidos pelas pessoas.

Através dos exercícios de Biofeedback, o indivíduo ganha consciência sobre o nível de tônus e é capaz de aprender estratégias objetivas para atingir o relaxamento e para aumentar o controle motor desejado. Esse treino pode ser realizado em músculos superficiais como o Trapézio, o ECOM (Esternocleidomastoideo) e Extensores da cabeça, por exemplo. Veja como funciona:

O treinamento de Biofeedback é realizado com dispositivos portáteis que são colados na superfície dos músculos com eletrodos adesivos. Esses sinais são convertidos em jogos que ensinam a pessoa a controlar tensão dos músculos para atingir o relaxamento e o aumento do controle de fibras lentas e rápidas. O treinamento com o Biofeedback pode ser treinado no local de atendimento ou na casa da pessoa, com supervisão remota de um profissional.

💡 Saiba mais sobre a técnica de Biofeedback nos e-books abaixo:

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Bira Maciel

Diretor científico da neuroUP

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Depoimentos

  • Tenho agora um recurso de avaliação objetiva que me permite identificar o grau de ativação muscular e ajudar a tornar conscientes os maus hábitos miofuncionais. Além disso, consigo mostrar, em uma escala visual, os progressos alcançados ao longo do treinamento. Não me vejo mais sem o neuroUP e os recursos de Biofeedback”.

    (Certificado em Biofeedback desde 2019)

    Paulo Soares

    Cirurgião Dentista | Especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial
  • O Myobox tornou-se imprescindível no meu atendimento, pois é capaz de mostrar, em tempo real, se a pessoa está realizando a atividade muscular de uma forma correta. Ela consegue fazer correções naquele momento, tentando fazer cada vez melhor e, ao longo das sessões, pode ver o seu sucesso. Eu consigo mostrar a sua evolução.”

    (Certificada em Biofeedback desde 2017)

    Janaína Costa

    Fisioterapeuta | Experiência em Neurofuncional
  • A neuroUP é uma ferramenta mensurativa importante incorporada na minha rotina. Permite uma avaliação assertiva do bruxismo de vigília e os seus subtipos, norteando a decisão com a inclusão de método cognitivo comportamental, medindo a evolução e o controle sobre músculos e tensões.”

    (Certificado em Biofeedback desde 2017)

    Otávio Sartori Dutra

    Cirurgião Dentista | Especialista em Ortopedia Funcional dos Maxilares
  • O resultados obtidos têm sido excelentes. A vantagem é que a geração de relatórios possibilita apresentar aos resultados obtidos e desta forma eles conseguem acompanhar a evolução a cada sessão. A equipe de desenvolvedores sempre está disponível para sanar quaisquer dúvidas e nos atualizar sempre!”

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    Vanda Lelis

    Cirurgiã Dentista | Especialista em DTM/Dor Orofacial

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Referências: 

  1. Yam MF, Loh YC, Tan CS, Khadijah Adam S, Abdul Manan N, Basir R. General Pathways of Pain Sensation and the Major Neurotransmitters Involved in Pain Regulation. Int J Mol Sci. 2018 Jul 24;19(8).

  2. Bourne S, Machado AG, Nagel SJ. Basic anatomy and physiology of pain pathways. Neurosurg Clin N Am. 2014 Oct;25(4):629-38

  3. Liossi C, Howard RF. Pediatric Chronic Pain: Biopsychosocial Assessment and Formulation. Pediatrics. 2016 Nov;138(5).

  4. Borg C, Chouchou F, Dayot-Gorlero J, et al. Pain and emotion as predictive factors of interoception in fibromyalgia. J Pain Res. 2018;11:823–835. Published 2018.

  5. Ong WY, Stohler CS, Herr DR. Role of the Prefrontal Cortex in Pain Processing. Mol Neurobiol. 2019;56(2):1137–1166. Apr 19.

  6. Schweinhardt P, Bushnell MC. Pain imaging in health and disease–how far have we come? J Clin Invest. 2010 Nov;120(11):3788-97.

  7. Koutsikou S, Watson TC, Crook JJ, Leith JL, Lawrenson CL, Apps R, Lumb BM. The Periaqueductal Gray Orchestrates Sensory and Motor Circuits at Multiple Levels of the Neuraxis. J Neurosci. 2015 Oct 21;35(42):14132-47.

  8. Koutsikou S, Crook JJ, Earl EV, Leith JL, Watson TC, Lumb BM, Apps R. Neural substrates underlying fear-evoked freezing: the periaqueductal grey-cerebellar link. J Physiol. 2014 May 15;592(10):2197-213.

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